sábado, 7 de maio de 2011

Thiago Pethit e Tiê - Essa Canção Francesa

domingo, 17 de abril de 2011

Fragmentos

O raso e o profundo

Seguro a caneta como se calculasse a medida entre o abismo que em mim criei e a vontade que o separa do salto para dentro dele. Acostumei-me ao comodismo da atração que as coisas exercem sobre mim, flutuo constrangida por seu magnetismo. Vinda do alto falante uma voz diz ‘you know how I feel’ quando de fato, o fato é tudo o que se produz e sigo meu fado sem saber como me sinto sobre o que sinto. Atraio-me para dentro de mim, sem caminhar ou fazer esforço. Levito. O buraco negro me suga. Vivo dentro de mim e me basto, não quero cruzar meus muros, não quero o raso, não quero o profundo. Basta. Não quero, não querer basta, basta não querer. Basta de não querer.

Cosmétrica

Ando cismando com minhas mãos, quem as tem segurado também, cismo se com a falta de esmalte e excesso de cutícula que o tempo escasso ocasionou, ou se com o excesso de tempo que nelas repousou. Lembro-me de terem sido mais lisas e cândidas, hoje ouvem do lápis o quanto eram chatas naquela época e tão poucas histórias tinham a contar, mas nem um lápis sabe entender a angustia da mulher com o tempo, mesmo daquela que fez dele seu ofício e seu sustento.

Papel e caneta

Nossos poros se encontram na escrita e nos interstícios deles deixo anotadas minhas impressões.

sábado, 5 de março de 2011

Mãos, pés, nariz. O frio e o calor

Tenho mãos e pés frios. A ponta do nariz, também. Faz frio lá fora e a tarde cinzenta traz recordações do que foi e do que ainda não chegou. As lembranças do que está por vir invadem o espaço deixado pelo que passou e consomem aos poucos o calor que ainda resta na sala de estar dos pensamentos, antes ocupada por deambulações sinestésicas. O tango nunca admirado in loco, as cordilheiras que rasgam o céu azul e os luminosos de Tóquio, tal como recortes de revista, fazem a vez do protetor de tela de meu desktop mental. O gosto do chá continua no paladar e o travo na língua remete a lembranças vizinhas.

Meus pés estão firmes no chão e o vento que entra pela janela me lembra do dia em que os molhei nas águas frias do Pacífico, naquela viagem ao Chile, onde nunca estive. Lembro-me também de já os ter molhado em outras águas frias, onde estive, ainda que custasse a crer.

Minhas mãos frias sustentam o queixo, logo abaixo de um olhar que contempla o cinza indeciso da tarde, visto pelo vidro de uma janela fechada, farta em gotejos de cusparadas dos querubins entediados. O olhar, mira um tanto mais além ansioso por encontrar aquelas mãos que emprestaram calor às minhas, já enrugadas, no meu aniversário de 62 anos. As mãos ainda se lembram do calor de outras e de por alguns instantes terem permanecido em temperatura normal, ainda que com um calor emprestado.

A ponta gelada de meu nariz transporta-me ao frio estádio da final do Mundial Interclubes de Dezembro de 2020, entre Palmeiras e Barcelona, no Japão. Lembra-me também das manhãs frias em que minha mãe com mãos quentinhas me agasalhava para ir à escola, mas, apesar de seu empenho, o nariz continuava gelado e passados muitos anos descobriu que apenas lágrimas quentes e beijos ardentes o poderiam esquentar.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

100

Os 99 posts anteriores estão traduzidos nesta canção, nas duas versões, para ser mais precisa.
Agradecemos a preferência.



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Epifania


Hoje acordei com fome. Depois do banho e de todo o ritual que o sucede, resolvi tomar o café na padaria. Pedi ao rapaz a já tradicional média e pão com manteiga na chapa, após o primeiro gole seguido da mordida no pão, notei que o que tinha não era fome, mas alguma inquietação que me atrapalhara o sono e me fizera sair da cama horas antes do habitual. Com tempo de sobra, tomei calmamente o restante do desjejum e refleti sobre o quanto detestava aquela palavra, também não gostava da palavra almoço, mas simpatizava pelo jantar. Tomado o café, me demorei na banca de jornal, onde tradicionalmente me informo, sem nunca comprar jornal ou revista. Caminhei pela avenida, incomodada pela estranha sensação... de sede? Ansiosa  por resolver a questão, comprei uma garrafa d’água, sentia mesmo um pouco de sede, mas não era ela a razão oculta do desconforto.

Durante o passeio pela avenida notei as pessoas que por mim passavam, os prédios por onde eu passava e a vida que perpassava a tudo. Os pés caminhavam com independência, sem precisarem das ordens da cabeça, que se ocupava em não ter ocupação alguma, além de apenas decodificar o que as retinas a ela enviavam. Os mesmos pés autônomos, como que impelidos pela mente dispersiva que retorna a si, estacaram diante da arte urbana e naquele momento os pés, a cabeça oca, o estômago e a retina se reintegraram, reconhecendo que pertenciam ao mesmo corpo, numa epifania percebi que estava sim com fome e sede e já beirava a inanição. Sentia fome de arte e sede da fluidez da beleza em mutação.